sábado, abril 01, 2006

Plasticina- Massa plástica que serve para moldar



Jantámos comodamente instaladas no sofá, em frente à televisão como duas boas amigas.
Fazia-se tarde, resolvi pôr pés ao caminho enquanto a Ana, que já tinha visto a peça, avisava:
- Depois conta-me o que te aconteceu. É fodido!
Não sabia de que é que ela estava a falar, mas fiquei ainda mais curiosa.
Sobrevivi à travessia das obras nos Aliados e cheguei ao Carlos Alberto, finalmente.
Desculpem-me, mas eu não percebo nada de teatro.
Por isso quando estava sentada naquelas cadeiras confortáveis e vi aquele cenário semi-destruído no palco, imaginei muitas situações e vozes, mas não acertei em nada. Ali não havia obras de melhoramento da cidade, nem jantares cómodos, nem casas de bons amigos, nem amigos. Havia uma televisão, sim, que marcava ausências. Havia um rapaz igual a outros rapazes,mas trabalhado em moldes grosseiros.
Desculpem-me, mas eu não percebo nada de teatro e tenho de falar do que vi, porque vi o avesso do Homem: hediondo. Fui engolindo tudo em pequenas porções e em crescendo.
É que o problema está em eu não perceber nada de teatro e sofrer quando vejo um homem em cima de uma grua ou uma televisão em estática.
Percebo tão pouco de teatro que quando o público aplaudia de pé, eu continuava sentada, cheia de raiva a explodir lá dentro: raiva dos noivos e dos convidados que humilharam Maksim na rua, da directora da escola que o expulsou, dos dois marmanjos sádicos que o violaram e espancaram, do homem paranóico da caixa do correio, e até de Liokha, o melhor amigo que o abandonou. Compreendi o que a Ana dizia:
- Depois, conta-me o que te aconteceu. É fodido!
Queria gritar aos actores, agora desarmados e sorridentes:
- Seus filhos da puta, primeiro incomodam-me a digestão e agora vão-se embora? Deixam-me sozinha com estes pensamentos?
Aos poucos despertei para o mundo (ou terei readormecido para ele?) e dei os meus sinceros parabéns a todos. Fora do teatro uma empatia estranha no ar: começámos a andar calmamente, ausentes do frio e dos gunas. Serei eu de plasticina?

Por isso, não percam!
Plasticina de Vassili Sigarev, encenação de Nuno Cardoso, no TeCA- Teatro Carlos Alberto- Porto
Até 2 de Abril

1 comentário:

maria disse...

bonito cantinho. parabéns contadora de estórias.