domingo, julho 09, 2006

Os blogs têm férias?


Pois claro!
Num país que se imobiliza pelo desporto, porque não fazê-lo pela alteração climática? (e depois pela entrada numa quadra festiva e depois porque...)
Os bloguistas têm direito a férias, feriados, baixa por motivo de doença, licença maternal, porque morreu o periquito, etc, etc, como qualquer proletário; só é pena isto ser voluntariado, porque seria divertido termos o nosso tempo de antena nas próximas presidenciais.

Assim sendo: Boas Férias!
Espero dar-vos notícias, do Reino Unido, em princípios de Agosto!
Bons Contos!

segunda-feira, junho 26, 2006

QUINTA DE CONTOS| Coimbra e Sessão De Contos| Aveiro




Registo fotográfico da sessão de 7 de Julho no Mercado Negro, Aveiro, promovida pela Livraria O Navio de Espelhos


Notícias:

O que mais nos agrada é que em JULHO há QUINTA DE CONTOS!!!!

A primeira parte cabe aos contadores de histórias da Camaleão e a segunda parte à contadora convidada.

No dia 6, pelas 22h00, no Ateneu de Coimbra.
No dia 7, pelas 21: 30, no Mercado Negro em Aveiro.
A contadora convidada é a TIXA.

Mar, amendoeiras e moiras. Escolhida de propósito para o calor de Verão.

Descobrimos a Tixa num final de tarde quente em Beja. Uma cerveja e tremoços. À nossa frente a planície.

À noite, a sua voz levou-nos para outro sul. Mais quente ainda.

E todos voámos nos seus contos com a consciência de ser único aquele momento.



A não perder.

quinta-feira, junho 15, 2006

Maratona de Contos em Guadalajara| 16, 17 e 18 de Junho de 2006




Tú sabes que estoy esperando el retorno de la Luna, para poder regresar a mi hogar, para poder visitar a mi gente y escuchar todos sus relatos, para poder escuchar las historias que cuentan.
La gente de la llanura escucha las historias de quienes viven lejos… y yo puedo sentarme al sol, sentarme a escuchar las historias que vienen de allí, historias que vienen de lejos.
Porque una historia es como el viento: viene de un lugar lejano, y la sentimos.

Kabbo el Bosquimano
Para obter mais informações sobre o programa deste encontro, acedam à página da Organização, clicando no cabeçalho da postagem.

Poção para criar um menino malcriado



Pode ser uma grande ajuda a quem procura miúdos criativos, inconformados!

Ingredientes:

- Meninos e Meninas
- Uma livraria (de preferência a Navio de Espelhos em Aveiro), biblioteca, escola, jardim... um espaço calmo para pensar.
- Um contador de histórias
- Livros
- Palavras, Memória e Imaginação

Modo de Preparação:

Desculpem, mas como não sou mestre, é tudo a olho. Não uso balança, nem copo doseador. Acho que se vai sentindo o peso dos ingredientes nas mãos, a sua textura, vendo o colorido dos sorrisos, o brilho dos olhos, ouvindo os silêncios, cheirando tudo.
Era assim que as mulheres da minha família faziam chanfana, e resultava.
Dentro da caçoila elas colocavam tudo, mas com muito carinho.
Ah pois! E serve-se com carinho!



Amanhã Sessão de Contos em Castelo de Paiva na Semana da Leitura

Procuram-se meninos malcriados!

" Nunca se sabe para onde levam os desvios do bom caminho. Às vezes levam para o mau caminho, outras vezes levam para o caminho óptimo.
Este é o raciocínio que costumam fazer os meninos mais malcriados do mundo, porque os meninos bem educados raciocinam sempre ao contrário, a não ser que sejam muitíssimo bem educados e então não raciocinam de maneira nenhuma."

Olavo D'Eça Leal,
Iratan e Iracema- Os meninos mais malcriados do mundo

quarta-feira, maio 31, 2006

II Encontro Internacional de Escritores e Contadores de Histórias| Rio Grande do Sul| Brasil



II Encontro Internacional de Escritores e Contadores de Histórias Rio Grande do Sul Brasil 2 e 3 de Junho de 2006
Olha que coisa mais linda é ela a Leninha que vem e que conta uma doce história, embalo do mar...
Pois é! A Helena Faria enconta (depois de ter encontrado e se encantado) pela América do Sul!

A Prefeitura de Caxias do Sul, por meio das secretarias municipais da Cultura (SMC) e Educação (SMED), em parceria com a Prefeitura de Porto Alegre, promove nos dias 02 e 03 de Junho, na Universidade de Caxias do Sul, o II Encontro Internacional de Escritores e Contadores de Histórias.
O encontro será coordenado pela professora/escritora/contadora Marô Barbieri.
As inscrições para participar dos painéis e das oficinas de contação de histórias podem ser feitas na Biblioteca da SMED, até o dia 31 de maio.
A Biblioteca da SMED fica na rua Antônio Prado, 339.
A primeira edição do evento aconteceu na Casa da Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, nos dias 07 e 08 de junho de 2005, e teve a participação de oito municípios.
A segunda edição terá nove municípios participantes (Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Cachoeirinha, Carlos Barbosa, Dois Irmãos, Garibaldi, Minas do Leão, Morro Reuter e Porto Alegre).

Objectivos

O encontro tem por objetivo reunir escritores/contadores de história, que, por meio de painéis e oficinas, passam as suas experiências e técnicas a professores, bibliotecários, alunos e mediadores de leitura.
A finalidade é divulgar o livro e a leitura como uma atividade prazerosa e importante para a construção do ser humano.
Segundo a coordenadora Marô Barbieri, “a narração oral, pela sua própria natureza, recoloca a possibilidade de reaproximação”. Ela acrescenta que “quem conta, olha; quem conta, se relaciona; quem conta é sentimento que se divide e espalha”. “Portanto”, continua, “que venham as histórias, em livros, na voz interna de cada leitor e no talento dos narradores orais para criar o encantamento necessário e dar à vida a dimensão mágica que ela sempre deveria ter."Os Escritores/Contadores de Histórias convidados que farão painéis e ministrarão oficinas são:

Adriana Jorgge - Florianópolis
Adriane Azevedo – Porto Alegre
Carlos Urbim - Porto Alegre
Celso Cisto - Cidreira
Colette Charlet - Cran Gevrier/ França
Érica Mylius - Porto Alegre
Helena Faria - Portugal
Heloísa Bacichette & Volnei Canônica- Caxias do Sul
Hermes Bernardi Jr - Porto Alegre
Ignácio Martinez - Montevidéu / Uruguai
Marília Tresca – São Paulo (SP)
Paula Martin - Buenos Aires/ Argentina
Reni T. Barbosa - Belo Horizonte (MG)

sábado, maio 27, 2006

Cristal Project


Cristal Project- Dia 2 de Junho na Meia final das Garage Sessions da TMN

Uma linda menina com voz de sereia (descendente de fadas e ondinas de terras mais frias?) e 5 músicos (de Hamelin?) enfeitiçam quem os ouve...

Da esquerda para a direita:

Paulo Portela- Contrabaixo
Luís Pedro- Percussão
Saphir Cristal- Voz e letras
Samuel Coelho- Violino, guitarra, xilofone e harmónica
João Maia- Guitarra eléctrica, clássica
Sérgio Diniz- Piano e guitarra

Para ouvir:
http://www.tmn.pt/

Para votar:
Texto: GS G
Nº: 4242





Minha música

Minha música não quer ser útil
Não quer ser moda
Não quer estar certa


Minha música não quer ser bela
Não quer ser má
Minha música não quer nascer pronta


Minha música não quer redimir mágoas
Nem dividir águas
Não quer traduzir
Não quer protestar


Minha música não quer me pertencer
Não quer ser sucesso
Não quer ser reflexo
Não quer revelar nada


Minha música não quer ser sujeito
Não quer ser história
Não quer ser resposta
Não quer perguntar


Minha música quer estar além do gosto
Não quer ter rosto, não quer ser cultura
Minha música quer ser de categoria nenhuma
Minha música quer só ser música:


Minha música não quer pouco.



Adriana Calcanhoto, A fábrica do poema, 1994

segunda-feira, maio 22, 2006

O BRINCADOR



O Brincador

Quando for grande, não quero ser médico, engenheiro ou professor.
Não quero trabalhar de manhã à noite, seja no que for.
Quero brincar de manhã à noite, seja com o que for.
Quando for grande, quero ser um brincador.
Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor.
Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer. Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador, e também que imaginar, como imagina um imaginador... A minha mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida.
E depois acrescenta, a suspirar: "é assim a vida".
Custa tanto a acreditar. Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar.
A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser um brincador.
Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta.
Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar mesmo depois de morta.
Na minha sepultura, vão escrever: Aqui jaz um brincador.

Álvaro Magalhães

Carles Garcia Domingo| Ateneu de Coimbra| 22h| 1 de Junho 2006


"Como é que tu te chamas?" Pausa. "Eu? Edite." Nova Pausa. "E tu?", "Parece que é Cardoso Pires.", respondi então.
De Profundis, Valsa lenta, José Cardoso Pires
Sempre que nasce uma coisa no mundo, nasce abraçada a uma palavra. Podemos saber nomeá-las ou não, dizê-las com sabor de erva doce ou com espinhos na boca, desconhecê-las com os seus sons agitados, ou afogá-las no nosso silêncio.
Mas há pessoas que abraçam muitas palavras, dão-lhes colo, andam com elas às cavalitas e depois (quando já estão crescidas) deixam-nas viajar por aí: os contadores de histórias.
O Carles é um contador com palavras abraçadas, desde a ponta da língua até ao dedo indicador espetado.
Se quiserem saber mais um pouco leiam o texto que se segue (do site do SET) e assistam à Sessão de Contos no dia 1 de Junho, pelas 22h, no Ateneu de Coimbra (perto da Sé Velha) com a participação dos Contadores da Camaleão e no dia 2 de Junho na Navio de Espelhos, em Aveiro, pelas 21 h 30m.

Com 20 anos de carreira e um currículo que contabiliza mais de 700 apresentações de contos e histórias para crianças e adultos, Carles é um economista totalmente dedicado à continuidade da tradição espanhola de contar histórias.
Fundador do Grupo Fábula, Carles participa regularmente em festivais e eventos dedicados à narração de histórias em diversos países e está há 10 anos à frente da programação das temporadas de espectáculos de histórias para adultos do Café de La Luna (Logroño).
Costuma participar em todas as edições dos Festivais de Narradores da Argentina, Colômbia, Brasil, Portugal, para além das actuar em todo o território espanhol.
É sócio fundador da Editorial Tándem, especializada em Literatura Infantil e Juvenil.

(texto retirado do site do Sons em Trânsito 2005 em www.set.com.pt/scid/ set/defaultArtistViewOne....)

II Festival Internacional de Contos de Évora


Não percam, dias 26 e 27 de Maio em Évora, conversas de pé de orelha, ditos recontados, e histórias de entredentes por contadores de histórias de muita qualidade.

CONTOS DE LUA CHEIA

Mais informações, na organização:
http://www.trimagisto.com/

sábado, maio 06, 2006

VII Mora Caiada de Contos



Nos dias 17 e 18 de Maio decorre em Mora :

VII MORA CAIADA DE CONTOS- DA PALAVRA AO TECLADO.

Inscrições até ao dia 15 de Maio para a seguinte morada:
Casa da cultura de Mora- Rua de São Pedro- 7490 Mora
Informações pelo telefone: 266 439079 ou em
http://casaculturamora.com.sapo.pt
Taxa de Inscrição: 10 € Estudantes: 7,50€


Programa

Dia 17
09h00 -
Recepção aos Participantes
09h30 -
Abertura Lúdica
10h00 -
Sessão de Abertura
10h45 -
Pausa para Café
11h00 -
Escrita, orientação e Invenção - Catarina Nunes (Universidade Aberta)

No tempo em que não havia auto-estradas da Comunicação - Luísa Medeiros (FCSH-UNL/IELT)

Jorge Serafim


12h30 -
Almoço


14h30 -
Workshops - Letras com Emoções - Cláudia Mendes / Ana Silva

ConTapetes - Nuno Coelho / Luís Carmelo

As Aventuras de Zé Leitão e Maria Cavalinho - Da Imagem à Palavra - Pedro Leitão

As Fiandeiras de Palavras - Tânia Silva

Contar para Respirar - Jorge Serafim


17h00
Encerramento


21h00
Serão de Contos

Jorge Serafim

Nuno Coelho

Luís Carmelo

Dia 18
09h30 -
Dos Diários de Adolescentes aos Blogs - Sílvia Madeira (ESE de Santarém)

Da Voz ao Digital: Percursos de Imaginação e Criatividade - Fátima Ribeiro de Medeiros (FCSH-UNL)


10h45 -
Pausa para café


11h00 -
Da Palavra ao Teclado

Tiago Rebelo

Rui Zink

Pedro Leitão

Miguel Sousa Tavares (a confirmar)


12h30 -
Almoço


14h30 -
Workshops - Letras com Emoções - Cláudia Mendes / Ana Silva

ConTapetes - Nuno Coelho / Luís Carmelo

As Aventuras de Zé Leitão e Maria Cavalinho - Da Imagem à Palavra - Pedro Leitão

As Fiandeiras de Palavras - Tânia Silva

Contar para Respirar - Jorge Serafim

quinta-feira, maio 04, 2006

Sessão de Contos





Registo Fotográfico da Sessão


Amanhã, dia 5 de Maio pelas 21h e 30m na Livraria Navio de Espelhos em Aveiro, Sessão de Contos para público adulto com Luís Cerqueira e Tânia Silva, contadores da Camaleão- Associação Cultural.
Sejam generosos e abram-se também ao mundo dos contos...

domingo, abril 30, 2006

Alegoria da Caverna- I

- Quando chegou falava de coisas muito estranhas,... bondade, amor, tolerância, caridade, quando aqui o que precisamos é de segurança, casa, pão e trabalho. Mas, o que logo nos fez desconfiar dele, foi o não nos lembrarmos de o ter visto alguma vez na televisão.




Quino, Que gente tão mazinha!


Lá estavam todos desalinhadinhos, dentro daquela casinha pré-fabricada como os anões deixados pela Branca de Neve. Entro em Lilliput.
- É verdade que o teu avô era mecânico? Porque tens esse anel? Quem te contou essa história?- e com estas bocas perguntadoras vou aquecendo e vou contando uma sobre a Lua, outra do macaco que adorava fruta, adivinhas...
O Renato traz um saco do Modelo carregado de tesouros: vai fazendo o desfile das suas relíquias tão antigas. O Ronald MacDonalds, carrinhos velocíssimos: 8 cilindros no mínimo ( a avaliar pelo barulho que sai dos seus lábios), apesar de lhes faltar uma roda, etc, etc.
Mas repara que no canto da sala o Bruno (quatro anos mais novo) esconde qualquer coisa encostando-se à parede, tapando com as pernas um pacote de Ice Tea. O Bruno ri com um riso desdentado e ternurento: também ele tem coisas para mostrar!
- Eu bebi o sumo!- e solta uma gargalhada que se desdobra em regozijo e confissão.

Turgueniev dizia que existem dois motores básicos para a vida: um é o AMOR, o outro a FOME. É de facto a Fome e o Medo da Fome que está na base de muitas acções do Ser Humano, mesmo do mais jovem, urbano ou racional.

O Renato levantou-se e sem dar tempo ao mais pequeno de fugir ou se esconder, encurralou-o e castigou-o por não partilhar com ele a comida.
- Vais levar, vais levar!- era só o que dizia e o que ouvia, enquanto pontapeava e soqueava o ar porque já o tínhamos afastado do inconsciente infractor.
A Madre veio buscar o Renato ( a Branca de Neve aparece de vez em quando!, possivelmente para comunicar que existem 7 pratinhos e 7 garfinhos, mas que não é preciso ser-se tão matemático na comida) enquanto o Bruno, ao meu lado, deixava cair gordas lágrimas em cima de um livro com uma imagem pateta de um gato a beber leite...

E eu com uma vontade de me transformar em Scarllett de Calcutá, agarrar num punhado de lenços de papel (era o que havia) e dizer:
- AND I PROMISSE THAT YOU'LL NEVER BE HUNGRY AGAIN, CARAGO!

sexta-feira, abril 28, 2006

A Moça Tecelã

Imagem do filme Brodeuses, de Eleonore Faucher



Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte. Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava. Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela. Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza. Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias. Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado. Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade. E feliz foi, durante algum tempo.

Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer. Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia.

Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira. Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse.

E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos! Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo. Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido.
Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins.
Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha.
E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta.
Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

Marina Colasanti, Um espinho de marfim

quarta-feira, abril 26, 2006

Os meus Domingos




Aos Domingos a seguir ao almoço visto o fato de treino roxo e verde e os sapatos de ténis azuis, a Fernanda veste o fato de treino roxo e verde e os sapatos de tacão alto do casamento, subo o fecho éclair até ao pescoço e ponho o fio de ouro com a medalha por fora, a Fernanda sobe o fecho éclair até ao pescoço e põe os dois fios de ouro com a medalha e o colar da madrinha por fora, tiramos o Roberto Carlos do berço, metemos-lhe o laço de cetim branco na cabeça, saímos de Alverca, apanhamos os meus sogros em Santa Iria de Azóia e passamos o Domingo no Centro Comercial.
A Fernanda senta-se atrás no Seat Ibiza, com o menino e a Dona Cinda, o Senhor Borges ocupa o lugar ao meu lado, de Record no sovaco, fato completo, gravata de flores prateadas e chapéu tirolês, ajuda-me no estacionamento das Amoreiras a tirar o carrinho da mala e todos os automóveis do parque são Seat Ibiza, todos têm mantas alentejanas nos bancos, todos apresentam um autocolante no vidro que diz Não Me Siga Que Eu Ando Perdido, todos possuem uma rodela Vida Curta no guarda-lamas direito e uma rodela Vida Longa no guarda-lamas esquerdo, de todos os espelhos retrovisores se pendura o mesmo boneco de peluche, todos exibem junto à matrícula com o círculo de estrelinhas da europa a mesma rapariga de Stetson e cabelo comprido, todos trouxeram o Record, os sogros e o filho, todos devem habitar em Alverca e todos circulam a tarde inteira no centro de forma idêntica à nossa: adiante a Fernanda e a Dona Cinda, de raposas acrílicas, a coxear por causa de uma unha encravada, empurrando o Roberto Carlos que esperneia, desfeito num berreiro, com a chupeta pendurada da nuca por uma corrente, e o Senhor Borges e eu vinte metros atrás, preocupados com a carreira do Olivais e Moscavide que perdeu em Alhandra apesar de ter comprado um cabo-verdiano ao Arrentela e que em vez de jogar à bola leva as noites a mariscar tremoços na cervejaria, de brinco na orelha, no meio dos amigos pretos, com o tampo da mesa coberto de canecas vazias.
Como a Fernanda e a Dona Cinda param em todas as montras de móveis e boutiques a bisbilhotarem quinanes e kispos, acontece enganar-me e trocá-las por outra sogra acrílica, outra mulher roxa e verde e outra criança de laço, e sucede-me passar horas num banco, sem dar pela diferença, com uma Fátima e uma Dona Deta, a planear as prestações de um microondas e de um frigorífico novo, seguir para Alverca, jantar o frango da Casa de Pasto e a garrafa de Sagres do costume, e só na Terça-feira, quando vou a sair para a Junta, a minha esposa informa, envergonhada, que mora em loures ou na Bobadela, o Roberto Carlos se chama Bruno Miguel, e deu pelo engano, há cinco minutos, porque a minha Última Ceia é de estanho e a dela de bronze. Claro que corrigimos o erro no Domingo seguinte, em que volto para casa com uma Celeste e um Marco Paulo no Seat, a que juntei
(será o meu Seat Ibiza?)
um autocolante que deseja Espero Não Te Conhecer Por Acidente.
Esta semana a minha mulher chama-se Milá, o meu filho Jorge Fernando e ando a pagar um apartamento em Rio de Mouro. Como esta sempre cozinha melhor do que as outras não faço tenções de voltar às Amoreiras. Se ela gostar de telenovelas só tornamos a sair daqui a muitos anos, quando o miúdo usar um fato de treino roxo e verde, eu encontrar no armário do quarto um casaco de raposas acrílicas e um chapéu tirolês, e escutar lá em baixo, a seguir ao almoço, a buzina do Seat Ibiza da minha nora. Como nessa altura devo andar a dieta de sal por causa da tensão qualquer peixe grelhado me serve.

António Lobo Antunes, Algumas Crónicas

sábado, abril 01, 2006

Plasticina- Massa plástica que serve para moldar



Jantámos comodamente instaladas no sofá, em frente à televisão como duas boas amigas.
Fazia-se tarde, resolvi pôr pés ao caminho enquanto a Ana, que já tinha visto a peça, avisava:
- Depois conta-me o que te aconteceu. É fodido!
Não sabia de que é que ela estava a falar, mas fiquei ainda mais curiosa.
Sobrevivi à travessia das obras nos Aliados e cheguei ao Carlos Alberto, finalmente.
Desculpem-me, mas eu não percebo nada de teatro.
Por isso quando estava sentada naquelas cadeiras confortáveis e vi aquele cenário semi-destruído no palco, imaginei muitas situações e vozes, mas não acertei em nada. Ali não havia obras de melhoramento da cidade, nem jantares cómodos, nem casas de bons amigos, nem amigos. Havia uma televisão, sim, que marcava ausências. Havia um rapaz igual a outros rapazes,mas trabalhado em moldes grosseiros.
Desculpem-me, mas eu não percebo nada de teatro e tenho de falar do que vi, porque vi o avesso do Homem: hediondo. Fui engolindo tudo em pequenas porções e em crescendo.
É que o problema está em eu não perceber nada de teatro e sofrer quando vejo um homem em cima de uma grua ou uma televisão em estática.
Percebo tão pouco de teatro que quando o público aplaudia de pé, eu continuava sentada, cheia de raiva a explodir lá dentro: raiva dos noivos e dos convidados que humilharam Maksim na rua, da directora da escola que o expulsou, dos dois marmanjos sádicos que o violaram e espancaram, do homem paranóico da caixa do correio, e até de Liokha, o melhor amigo que o abandonou. Compreendi o que a Ana dizia:
- Depois, conta-me o que te aconteceu. É fodido!
Queria gritar aos actores, agora desarmados e sorridentes:
- Seus filhos da puta, primeiro incomodam-me a digestão e agora vão-se embora? Deixam-me sozinha com estes pensamentos?
Aos poucos despertei para o mundo (ou terei readormecido para ele?) e dei os meus sinceros parabéns a todos. Fora do teatro uma empatia estranha no ar: começámos a andar calmamente, ausentes do frio e dos gunas. Serei eu de plasticina?

Por isso, não percam!
Plasticina de Vassili Sigarev, encenação de Nuno Cardoso, no TeCA- Teatro Carlos Alberto- Porto
Até 2 de Abril

sexta-feira, março 24, 2006

Páscoa e Detergentes



Lembro-me de quando era miúda existir um ritual que me intrigava e que se veio a perder. Intrigava-me porque era uma manifestação exclusivamente feminina, (mas só na casa das mães dos meus amigos) e depois porque verificava que era um fenómeno das pequenas cidades.


Pois, isto dito assim até parece que sou uma gaja urbana, mas sou é natural da província, e como tal vou relatar o que acontecia por alturas da Páscoa e que para grande infelicidade minha (e das empresas de detergentes) já não acontece mais.
Duas ou três semanas antes da Páscoa as senhoras abriam guerra contra a sujidade em geral. Era uma maratona de limpezas que terminava no Domingo de Páscoa com a chegada do Nosso Senhor regado na Cruz –não quis dizer pregado mas sim regado!- de cuspo dos beijos de sei lá quantos lábios peganhentos!
E na casa o cheiro do incenso que os ajudantes do padre (semelhantes a ajudantes do Pai Natal, sempre pequeninos e vermelhinhos da pinga ingerida pelo caminho) traziam no turíbulo misturavam-se com a lixívia, verniz, Pronto, Bondex e cera do chão.


Mas linda era essa tradição em que a competição feminina era levada ao rubro para mostrar quem tinha a casa mais limpa. Para grande desgosto meu, a minha mãe nunca foi partidária dessa ideologia higienista e lembro-me de no tempo das vacas gordas ser a mulher-a-dias que entrava no campeonato pela minha mãe, uma espécie de duplo. Ora não era a mesma coisa! Havia uma falta de autenticidade nas minhas afirmações:
-Hoje arrastamos o aparador da sala! –dizia eu com um ar estafado e os meus amigos viam logo que aquilo era um grande coro, porque na realidade aquele plural aplicava-se à Dona Adelaide (magrinha, mas cheia de energia). Nessa altura ficava sem ninguém para brincar.

Até os rapazes eram mobilizados em função de portas a serem envernizadas, só eu tinha longos tempos de ócio!
Foi assim que tive tempo para descobrir as diferenças entre o pecado da cidade e o pecado da aldeia (e para roubar um dos perfumes da minha avódrasta e ler Emanuelle; os meus primeiros pecados de Páscoa!).
É que quando ia visitar a Titi ao Porto, o panorama era o mesmo, nada de stress, nada de limpezas extra, apenas se pensava na ementa dos dias festivos.


Percebi logo tudo!
Na aldeia as mulheres tentavam sintonizar com o sofrimento de Cristo acartando grandes baldes de água para lavar terraços e escadas, pintar divisões até ficar com insuportáveis hérnias discais, tudo em prol da dor, tudo para expiar os pecados. E se a casa estivesse limpa e arrumada assim estaria a sua alma e a da sua família. Assumiam o cargo de xamãs e purificavam a tribo toda.


Na cidade essa visão utópica já estava em desuso, o existencialismo entrara nos costumes. A Titi gostava era da festa e isso de limpar a casa ou limpar a alma estava adormecido pelas gargalhadas, pelo cheiro do cabrito assado, pela música estridente, enfim pela Vida. Afinal a Páscoa é a celebração da vida e não só da morte, não é?

Agora nestes dias que a antecedem sinto a nostalgia dos cheiros dos produtos de limpeza, dos gritos desalmados das mães das vizinhas: - Ó Guiiiiiiiiiiiiida!, e do sorriso sarcástico quando passavam pela filha da pecadora que não levava a cabo a tarefa da limpeza da Quaresma. Que saudades desse hábito tão português! Ainda bem que sobreviveu o outro! O do pecado da Páscoa!

Hoje não me apetece limpar a casa de banho, talvez vá pecar um bocadito.

quarta-feira, março 22, 2006

Vacas e Livros


O que é que as vacas e os livros têm em comum?
Em Salamanca há uma editora que nos explica tim por tim essa ligação misteriosa.
Afinal os livros são seres vivos!
A editora só podia ter este nome: Media Vaca.
Se quiserem ver e comprar alguns livros passem pela livraria Navio de Espelhos em Aveiro.

La vaca es animal más extraordinario que existe. Nos la comemos con patatas, hace bonito en el campo y es fuente de inspiración para artistas y poetas. Uno de los estómagos de la vaca se llama libro, y no debe extrañarmos, porque el libro es el segundo animal más extraordinario. Lo manchamos de salsa, hace bonito en las estanterias y a través de él nos llegan regularmente las ocurrencias de artistas y poetas. La vaca es un ruminante: se traga el alimento para más tarde devolverlo a la boca y masticarlo con tranquilidad. Exactamente de esa forma se deberían leer los libros: volviendo a ellos en diferentes ocasiones y masticándolos a fondo para asegurarnos una digestión placentera.
Los niños aprenden con los libros, pero también con las piedras, las moscas, las hormigas y las arañas. Aprenden con todo. Aprenden jugando. Y no se cansan de aprender. Por eso es absurdo que existan libros aburridos y que se se pierda tiempo con ellos en lugar de dedicarlo a observar a los escarabajos peloteros. Algunos de los más aburridos están hechos por gente con mentalidade de sastre que cree que los libros para niños deben ser como los trajes para niños: varias talles más pequeños. La mirada inocente del niño nada tiene que ver con los pantaloncitos. Si no se entiende todo, qué más dá? Pocos adultos pueden explicar por qué vuelan los aviones y sin embargo no tienen miedo a viajar en ellos.

Depois de ler este texto estivemos a tecer longas considerações teóricas sobre Literatura Infantil num grupo de adultos chatíssimos onde só a Francisca (de 6 anos e desatenta a tudo, pelo menos parecia...) estava presente, e pôs-nos uma rolha com:
- Então, as vacas eram iguais aos livros porquê? Por serem pretas e brancas?

terça-feira, março 21, 2006

Quinta de Contos


Que não vos caia da "alembradura":
No dia 6 de Abril de 2006, pelas 22h, abrem-se as portas do Ateneu de Coimbra (perto da Sé Velha) para receber mais uma noite de Quinta de Contos. A primeira parte cabe aos contadores da Camaleão e a segunda parte é só para o nosso convidado, contador de histórias do filão mais tradicional: José Craveiro.