quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Capítulo Terceiro (derradeiro e triunfal) de A Puta de Mensa de Woody Allen


Fotografia de Joana Lorça, cortesia de Nilson




Caros leitores,

Peço desculpa pelas taquicardias, tremores e espasmos provocados ao não ter cumprido a promessa da publicação do último capítulo.
Talvez as "brasileiras" de collants tenham perdido a sua doçura saltitante no sambódromo, e a cerveja vos soubesse a canja de galinha, certo? Eu sei que a ansiedade é muita, mas vale a pena a espera:


Entrei na livraria do Hunter College. O vendedor, um jovem de olhos sensíveis, veio ter comigo.
- Posso ajudar?
- Ando à procura de uma edição especial de Advertisements for Myself. Parece que o autor mandou imprimir uns milhares com rebordos dourados para os amigos.
- Vou ver – disse ele. – Temos uma linha verde para casa do Mailer.
Olhei-o fixamente.
- Foi a Sherry que me mandou- disse eu.
- Ah, nesse caso, passe lá para trás – disse. Carregou num botão. Abriu-se uma parede forrada de livros e eu entrei como um cordeirinho nesse trepidante palácio do prazer conhecido por Flossie’s.
Papel de parede vermelho com uns relevos e um décor vitoriano davam o tom. Raparigas pálidas e nervosas, de óculos de aros pretos e cabelo cortado a direito esparramavam-se indolentes em sofás, folheando livros de bolso da Penguin Classics, provocantes. Uma loura com um grande sorriso piscou-me o olho, indicou, num aceno de cabeça, um quarto no andar de cima e disse: “Wallace Stevens, hã?” Mas não eram só experiências intelectuais – também ofereciam experiências emocionais. Disseram-me que por cinquenta dólares se podia “ter uma relação de intimidade”. Por cem, a rapariga podia emprestar-nos os seus discos de Bartok, jantar e depois deixava-nos a vê-la ter uma crise de angústia. Por cento e cinquenta, podia-se ouvir FM com gémeas. Por três notas, tinha-se o tratamento completo. Uma judia morena e magrinha fingia ir buscar-nos ao Museu de Arte Moderna, deixava-nos ler a tese de mestrado, metia-se connosco numa discussão de gritos no restaurante Elaine’s sobre a concepção freudiana das mulheres, e depois fingia um suicídio à nossa escolha – o serão perfeito, para alguns. Bela negociata. Grande cidade, Nova Iorque.
-Gostas do que vês? – disse uma voz atrás de mim. Virei-me e de repente dei de caras com o cano de um .38. Tenho o estômago forte, mas desta vez deu uma volta e tanto. Era mesmo a Flossie. A voz era igual, mas Flossie era um homem. Tinha a cara escondida por uma máscara.
- Não vais acreditar – disse ele -, mas nem grau académico tenho. Fui expulso por ter más notas.
- É por isso que usas máscara?
- Engendrei um plano complicado para assumir o controlo da New York Review of Books, mas para isso tinha de me fazer passar pelo Lionel Trilling. Fui ao México fazer uma operação. Há um médico em Juarez que dá às pessoas as feições do Trilling – e isso tem um preço. E correu mal. Saí de lá parecido com o Auden com a voz de Mary Mc Carthy. Foi quando comecei a trabalhar à margem da lei.
Muito depressa, antes que ele pudesse premir o gatilho, entrei em acção. Lançando-me para a frente, dei-lhe com o cotovelo na queixada e agarrei na arma, enquanto ele caía para trás. Tombou por terra como um saco de batatas. Ainda estava a choramingar quando a polícia chegou.
- Bom trabalho, Kaiser – disse o sargento Holmes. - Quando despacharmos este tipo, o FBI quer ter uma conversa com ele. Uma coisita que mete uns jogadores profissionais e um exemplar anotado do Inferno de Dante. Levem-no, rapazes.
Mais tarde, nessa noite, procurei uma antiga cliente minha chamada Gloria. Era loira. Tinha-se formado cum laude. A diferença é que se tinha licenciado em educação física. Soube-me bem.


FIM

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

E cá está outro concurso: Prémio Litterarius

Trabalhos originais podem entrar no concurso até 15 de Março.
O Prémio Litterarius é uma iniciativa anual do RACAL Clube que visa incentivar a produção artística de originais e valorizar a Língua Portuguesa. As inscrições para o concurso iniciam-se no próximo dia 15 de Fevereiro e terminam a 15 de Março.
Podem concorrer cidadãos dos países de língua oficial portuguesa, com o máximo de três obras inéditas por concorrente. O tema é livre e os trabalhos podem ser na modalidade de poesia (entre 5 a 10 páginas, com um ou vários poemas), banda desenhada (máximo 4 pranchas) ou conto (máximo 6 páginas).
As obras apresentadas sob pseudónimo devem ser individuais e redigidas em páginas A4, processadas em Word, fonte Times New Roman ou Arial, tamanho 12, a espaço 1,5.
A entrega dos trabalhos pode ser feita pessoalmente ou por correio.
Em qualquer dos casos, deverá constar no envelope:
Prémio Litterarius, RACAL Clube,
Rua Cândido dos Reis, nº 38, 8300 Silves.
O primeiro prémio é de 500 euros e o trabalho será publicado on-line ou em suporte de papel, reservando-se o júri o direito de atribuir menções honrosas.
A cerimónia solene de entrega de prémios decorrerá no dia 26 de Maio.

Para mais informações, devem os interessados utilizar o telefone 282442587, o fax 282445818, o e-mail premio_litterarius@sapo.pt ou ainda consultar o blogue na Internet http://premiolitterarius-racalclube.blogspot.com/

Capítulo Segundo (e assombroso) de A puta de Mensa de Woody Allen


Foto de Joana Lorça, cortesia de Nilson


Fiz a barba e bebi café forte enquanto consultava a série de resumos do Monarch College. Menos de uma hora depois, batiam à porta. Abri, e à minha frente estava uma jovem ruiva, embalada numas calças à boca de sino, como dois grandes cones de gelado de baunilha.
- Olá, sou a Sherry.
Sabiam mesmo excitar-nos a fantasia. Cabelo comprido liso, carteira de cabedal, brincos de prata, sem maquilhagem.
- Até me espanta que a deixassem entrar vestida dessa maneira – disse eu. - O detective do hotel normalmente nota uma intelectual à légua.
- Uma nota de mil acalma-o logo.
- Começamos? – disse eu, encaminhando-a para o divã. Ela acendeu um cigarro e pôs-se ao assunto.
- Acho que podíamos começar com uma abordagem do Billy Budd como a justificação que Melville dá para os insondáveis desígnios de deus para com o Homem, n’est-ce pas?
- Mas o interessante, no entanto, é que não é no sentido miltoniano. – Eu estava a fazer bluff. A ver se ela caía.
- Não. Paradise Lost não tem a subestrutura do pessimismo. – Caiu.
- Certo, certo. Caramba, tem toda a razão – murmurei.
- Penso que Melville reafirmou as virtudes da inocência num sentido ingénuo e, no entanto, sofisticado – não concorda?
Deixei-a continuar. Nem devia ter dezanove anos, mas já ganhara o calo da facilidade do pseudo-intelectual. Matraqueou as ideias dela, toda ligeirinha, mas era tudo mecânico. Sempre que eu lhe dava uma ideia, ela fingia uma reacção.
- Sim, Kaiser, sim, filho. Essa é profunda. Uma compreensão platónica do cristianismo… como é que não vi isso antes?
Falámos aí uma hora e depois ela disse que tinha de ir. Levantou-se e eu dei-lhe nota vinte.

- Obrigada, querido.
- Podes ter muito mais.
- Que queres dizer?
Tinha-lhe picado a curiosidade. Sentou-se outra vez.
Faz de conta que eu queria… fazer uma festa? – disse.
- Tipo, que tipo de festa?
- Imagina que queria duas raparigas a explicar-me Noam Chomsky.
- Oh, uau!
- Mas se não quiseres…
- Terias de falar com a Flossie – disse ela. – e fica-te caro.
Era altura de apertar a tarracha. Mostrei-lhe o crachá de detective privado e informei-a de que ia dentro.
- Quê?
- Sou da bófia, filha, e discutir Melville por dinheiro é um 802. Vais cumprir pena.
- Miserável!
- É melhor confessares, rica. A menos que queiras contar a tua história no gabinete de Alfred Kazin e acho que ele não ia gostar lá muito de a ouvir.
Pôs-se a chorar.
- Não me entregues, Kaiser – disse.- Precisava do dinheiro para acabar o mestrado. Não mederam a bolsa que pedi. Por duas vezes. Ó, meu Deus!
E lá veio o chorrilho todo – a história completa. Criada em Central Park West, campos de férias socialistas, Brandeis. Ela era todas as miúdas que já se viram na bicha do Elgin ou da Thalia, ou escrevendo a lápis as palavras “sim, mujito verdadeiro” na margem de um livro qualquer sobre Kant. Só que algures a coisa dera para o torto.
- Precisava do dinheiro. Uma amiga minha disse que conhecia um tipo casado cuja mulher não era lá muito profunda, Ele estava numa de Blake. Ela não dava. E eu disse, claro, se ele pagar, eu falo de Blake com ele. No princípio estava nervosa. Fingi uma data de coisas. Ele não se importou. A minha amiga disse que havia outros. Oh, já fui presa antes. Fui apanhada a ler a Commentary num carro estacionado, e doutra vez fui detida e revistada em Tanglewood. Mais uma, e sou três vezes desgraçada.
- Então leva-me à Flossie.
Ela mordeu o lábio:
- A livraria de Hunter College é uma fachada.
- É?
- Como aqueles corredores de apostas que têm fachada de barbearia. Vais ver.
Fiz uma chamada rápida para a sede e depois disse-lhe:
- Tudo bem, filha. Estás safa. Mas deixa-te ficar por estas bandas.
Ela ergueu o rosto para mim, com gratidão.
- Posso arranjar-te fotografias do Dwight MacDonald a ler – disse.
- Fica para a próxima.

Cenas do próximo e último capítulo:

- Kaiser é assediado por Wallace Stevens!
-Afinal, Flossie usa um 38!

Não percam o último capítulo! Sai amanhã! (ou Terça, não sei se amanhã me apetece.)

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

1º Concurso de Conto e Poesia- CGTP-IN





O Departamento de Cultura e Tempos Livres da CGTP-IN promove a realização de um Concurso de Conto e Poesia com o objectivo de traduzir, também deste modo, a sua preocupação de aproximar os trabalhadores das esferas da criação cultural, protagonizada no texto de introdução do evento: “(…) Num tempo de excessiva presença das linguagens técnicas e tecnológicas nos usos quotidianos da escrita e da leitura, o concurso “Conto e Poesia” pretende, de algum modo, valorizar a língua portuguesa e estimular o seu uso com a utilização do código literário.
Este estímulo junto dos trabalhadores facilitará, igualmente, e assim o esperamos, o surgimento de novos valores, dando-lhes oportunidade de edição que, de outro modo, lhes estaria vedada, tendo em conta as regras existentes no mundo livreiro.”(…) Ou, citando Álvaro de Campos num seu poema “Às Vezes”: “(…) Depois de escrever leio…Porque escrevi isto? Onde fui buscar isto? De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...”
Jornalista e redactor é mensageiro e… sempre “autor”.
É este o apelo que a CGTP-IN faz: leve a mensagem e… participe.
Os escritores Urbano Tavares Rodrigues e Domingos Lobo, o jornalista José Carlos Vasconcelos e os sindicalistas Paulo Sucena e Fernando Gomes (representante da CGTP-IN) constituem o júri de um concurso que tem como data limite de participação 27 de Abril.
Para mais informações sobre o concurso e download das fichas de inscrição, por favor consultem o site da CGTP.

REGULAMENTO DO 1.º CONCURSO DE “Conto e Poesia”


Introdução

Constitui objectivo programático da CGTP-IN criar linhas de trabalho que aproximem os trabalhadores das diferentes esferas da criação cultural.

A organização do Concurso “Conto e Poesia” consubstancia uma forma de corporizar o direito constitucional do acesso à cultura, à sua fruição e criação, e visa promover, estimular e divulgar a criação literária junto dos trabalhadores.

Num tempo de excessiva presença das linguagens técnicas e tecnológicas nos usos quotidianos da escrita e da leitura, o concurso “Conto e Poesia” pretende, de algum modo, valorizar a língua portuguesa e estimular o seu uso com a utilização do código literário.

Este estímulo junto dos trabalhadores facilitará, igualmente, e assim o esperamos, o surgimento de novos valores, dando-lhes oportunidade de edição que, de outro modo, lhes estaria vedada, tendo em conta as regras existentes no mundo livreiro.

Neste contexto, e com estes objectivos, o Departamento de Cultura e Tempos Livres da CGTP-IN promove a realização do 1.º Concurso “Conto e Poesia” que se pautará pelo regulamento seguinte:


1. Tema

A organização do concurso apela à produção de textos que privilegiem os direitos humanos, a cultura, o trabalho, a sociedade, o homem e a mulher trabalhadora.


2. Participantes e identificação

2.1. O concurso destina-se a amantes da escrita criativa e da criação literária, trabalhadores sindicalizados no Movimento Sindical Unitário, trabalhadores em geral, estudantes e aposentados.


2.2. Cada concorrente poderá apresentar um currículo com um máximo de 500 caracteres.


3. Condições de Participação

3.1. Os trabalhos a concurso têm de ser inéditos;

3.2. Os participantes poderão concorrer indistintamente às áreas de conto e de poesia; cada trabalho deverá ser entregue em suporte informático e em papel (6 cópias), nos seguintes termos:

O texto deverá ter até 20 páginas A4, batidas a 1,5 espaços, com tipo de letra Times New Roman, tamanho 12;
Os textos deverão ser entregues em invólucro contendo no interior 2 envelopes. Num deverá constar o texto original em papel com 6 cópias e, no outro, uma disquete contendo o texto em formato Microsoft Word for Windows (.DOC) e a ficha de inscrição;
No invólucro exterior deverá constar a indicação do pseudónimo.

3.3. Nas folhas do trabalho não pode constar qualquer indicação sobre o concorrente, sob pena de este vir a ser excluído;

3.4. Os membros do júri e elementos da organização (Departamento de Cultura e Tempos Livres da CGTP-IN) estão impedidos de concorrer.

3.5. Os trabalhos deverão ser entregues por mão ou enviados por correio para o seguinte endereço:

CGTP-IN / Departamento de Cultura e tempos Livres
1.º Concurso “Conto e Poesia” –
Rua Vítor Cordon, n.º 1 – 2.º
1249-102 LISBOA

3.6. Quaisquer informações poderão ser prestadas pelo tel: 21 323 65 00 (Carla Alves), pelo e-mail carla.alves@cgtp.pt ou através da consulta do site www.cgtp.pt.


4. Calendário

4.1. O prazo de entrega dos trabalhos termina a 27 de Abril de 2007;

4.2. Os resultados do concurso serão divulgados até o dia 15 de Junho de 2007, por carta dirigida a todos os participantes, através da imprensa e dos canais habituais do movimento sindical.


5. Júri

5.1. O júri será constituído por:

· Urbano Tavares Rodrigues
· Domingos Lobo
· José Carlos Vasconcelos
· Paulo Sucena
· Fernando Gomes, representante da CGTP-IN

5.2. As decisões do júri serão tomadas por maioria.

5.3. O júri do concurso reserva-se o direito de não atribuir algum dos prémios.

5.4. Não haverá recurso das decisões do júri.


6. Prémios

6.1. Serão atribuídos os seguintes prémios:

· 1.º Prémio de conto: 750.00€ + 5 Noites para 2 pessoas em regime meia pensão no Centro de Férias do INATEL em Albufeira.
· 1.º Prémio de poesia: 750.00€ + 5 Noites para 2 pessoas em regime de alojamento e pequeno-almoço no INATEL – Estalagem do Piódão.

Nota: O Júri poderá atribuir, se assim o entender, menções honrosas em·qualquer das categorias


7. Direitos

7.1. Os trabalhos premiados no concurso passarão a ser parte patrimonial da CGTP-IN. Esta, no âmbito das suas actividades, poderá fazer uso desse património sempre com a salvaguarda da identificação do seu autor.

7.2. Para todos os efeitos, a organização considera que a partir do momento em que os trabalhos sejam entregues, os concorrentes aceitam os termos deste regulamento.

7.3. Os casos omissos serão resolvidos pela organização, não havendo lugar a recurso das suas decisões.


8. Edição

A organização editará um livro/memória do concurso. Desta edição constarão, obrigatoriamente, os trabalhos premiados. A organização promoverá o seu lançamento público em data a comunicar.



9. Organização

O presente concurso é organizado pela CGTP-IN através do Departamento de Cultura e Tempos Livres.


10. Patrocínios e Apoios

O 1.º Concurso “Conto e Poesia” da CGTP-IN tem os seguintes patrocínios:

· Fundação Montepio Geral
· INATEL
· LiberInter – Cooperativa de Mediação de Seguros, CRL
· Sagres – Companhia de seguros, SA

e conta com os seguintes apoios:

· Junta de Freguesia de Santa Catarina – Lisboa

"O amor é um lugar estranho"




Quadras para Ofélia Queiroz (1920)



Quando passo um dia inteiro

Sem ver o meu amorzinho,

Corre um frio de Janeiro

No Junho do meu carinho.



Meu amor, dá-me dois beijos

P'ra me dares um terceiro,

Que é só para haver um quarto

Antes do quinto e do primeiro.



O meu amor é pequeno,

Pequenino não o acho,

Uma pulga deu-lhe um coice,

Deitou-o da cama abaixo.



Fernando Pessoa


Aproveito o título do filme para reflectir sobre este dia e o sentimento que hoje se celebra: o Amor.


Acho que é uma excelente definição. Há uns que dizem que é fogo que arde sem se ver, outros há que garantem ser um estado nascente, o mais simples e básico dos movimentos colectivos revolucionários. Outros resolvem ir à génese e explicá-lo pelo mito do ser duplo.


Eu cá, gosto da opinião do Campos: " todas as cartas de amor são ridículas" e de Ortega e Gasset que afirma que "o enamoramento é uma imbecilidade temporária, um enfarte psíquico".


São tão mágicos esses cortes com a racionalidade, esse retorno a um estado infantil em corpo de adulto, que dizem que há quem nunca tenha regressado de lá.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Capítulo Primeiro (e inaugural) de A puta de Mensa de Woody Allen

Fotografia de Joana Lorça, cortesia de Nilson


Com este conto de Woody Allen vamos encetar uma nova era neste blog: a era do folhetim. Como a nossa capacidade leitora fica visivelmente mais reduzida neste formato do que em livro, vou publicar alguns contos com a técnica folhetinesca, isto é por capítulos.

Li este conto na fantástica revista de contos Ficções, de Luísa Costa Gomes, era uma edição especial só com contos humorísticos.


"A Puta de Mensa (The Whore of Mensa), originalmente publicado no New Yorker, foi depois incluído no primeiro livro de Woody allen, Without Feathers (1975). Existe tradução portuguesa, Sem penas, Bertrand, 1981. O título do conto brinca com a Sociedade Mensa, fundada em Inglaterra em 1946 por Roland Berril e Lance Ware. Mensa é uma sociedade para muitíssimos inteligentes, sendo único requisito para admissão um quociente de inteligência que se situe nos 2% do topo."


Isto há uma coisa quando se é detective, tem de se aprender a seguir os nossos palpites. É por isso que, quando me entrou pelo escritório um tremebundo monte de banha de nome Word Babcok e pôs as cartas na mesa, eu devia era ter confiado no arrepio que me subia pela espinha.
- Kaiser? – disse ele.- Kaiser Lupowitz?
- É o que diz a minha licença – admiti.
- Tem de me ajudar. Sou vítima de chantagem. Por favor!
Tremia como o cantor de um conjunto de rumba. Empurrei um copo pelo tampo da secretária e uma garrafa de uísque de malte que tenho sempre à mão para fins não medicinais.
- E se te acalmasses e me contasses tudo?
- Você… não diz à minha mulher?
- Sê franco comigo, Word. Não prometo nada. Tentou servir-se de uísque, mas ouvia-se o tilintar do outro lado da rua, e a maior parte do líquido foi parar aos sapatos.
- Eu trabalho - disse. – Manutenção mecânica. Construo e distribuo joy buzzers. Está a ver – aquelas brincadeiras que dão choques às pessoas quando nos apertam a mão.
- E?…
- Há montes de executivos que gostam. Especialmente ali para a Wall Street.
- Vamos ao que interessa.
- Ando muito na estrada. E sabe como é… sinto-me só. Não é o que está a pensar. Percebe, Kaiser, basicamente sou um intelectual. É claro que um gajo pode conhecer todas as bimbas que quiser. Mas uma mulher mesmo cerebral… não se encontra assim do pé para a mão.
- Continua.
- Bem, ouvi falar de uma rapariga. Dezoito anos. Estudante em Yassar. Paga-se um tanto e elea vem discutir um tema qualquer… Proust, Yeats, antropologia. Troca de ideias. Está a ver a ideia?
- Nem por isso.
- Ou seja, a minha mulher é óptima, não me interprete mal. Mas não discute Pound comigo. Ou Eliot. Não sabia isso quando me casei com ela. Preciso de uma mulher que seja estimulante, Kaiser. E estou disposto a pagar por isso. Não quero uma relação… quero uma experiência intelectual rápida, depois quero que a rapariga se vá embora. Que raio, Kaiser, sou casado e sou feliz.
- Há quanto tempo é que isto dura?
- Seis meses. Sempre que sinto desejo, ligo à Flossie. É uma Madame, com mestrado em Literatura Comparada. E ela manda-me uma intelectual, percebe?
Portanto, era um destes tipos cuja fraqueza é mulheres muito inteligentes. Tive pena do pobre coitado. Calculei que devia haver muitos brincalhões na mesma situação, famintos por uma pouca de comunicação intelectual com o sexo oposto, e haviam de pagar fortunas por ela.
- Agora ela ameaçou contar à minha mulher- disse ele.
- Quem?
- A Flossie. Puseram o quarto do motel sob escuta. Têm fitas gravadas em que eu discuto The Waste Land e Styles of Radical Will e, bem, chegando a uma discussão profunda. Querem dez mil, ou vão falar à Carla. Kaiser, tem de me ajudar! A Carla morreria se soubesse que não me excitava cá em cima.
O velho negócio das call-girls. Tinha ouvido uns boatos de que os rapazes na sede andavam atrás duma coisa que metia um grupo de mulheres cultas, mas ficou tudo em águas de bacalhau.
- Liga aí à Flossie.
- Quê?
- Vou pegar no caso, Word. Mas ganho cinquenta dólares por dia, mais despesas. Vais ter de consertar muitos joy buzzers.
- Não me vai custar dez mil, isso de certeza – disse ele. Num sorriso, levantou o auscultador e discou o número. Tirei-lho e pisquei o olho. Começava a gostar dele.
Segundos depois, respondia uma voz sedosa e eu disse-lha o que queria:
- Parece que me pode ajudar a combinar uma hora de boa conversa – disse.
- Claro, querido. Qual era a tua ideia?
- Gostava de discutir Melville.
- Moby Dick ou os romances mais curtos?
- Qual é a diferença?
- O preço. Só isso. O simbolismo é pago à parte.
- Quanto é que isso me custa?
- Cinquenta, talvez cem para o Moby Dick. Queres uma discussão comparativa… Melville e Hawthorne? Podia arranjar-te isso por cem.
- Quanto à massa, tudo bem – disse eu e dei-lhe o número de um quarto no Plaza.
- Queres loira ou morena?
- Faz-me uma surpresa – disse eu e desliguei.


Continua no próximo capítulo...

sábado, fevereiro 10, 2007

Uma semana cheia de livros e contos na Biblioteca de Chaves











Decorreu a segunda semana no âmbito do projecto Viver a Escola, na Biblioteca Municipal de Chaves privilegiando a Promoção do Livro e da Leitura assim como da Oralidade.
Com a iniciativa Laboratório das Letras, os alunos participaram em várias iniciativas: sessões de contos, a performance Hoje choveram histórias e leituras encenadas.
Paralelamente realizaram-se oficinas de escrita criativa utilizando diferentes recursos.

Histórias no Carnaval...e não só.

Um Carnaval
Vem ao baile vem ao baile
pelo braço ou pelo nariz
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver como te ris
Deixa a tristeza roer
As unhas de desespero
Deixa a verdadade e o erro
Deixa tudo vem beber
Vem ao baile das palavras
Que se beijam desenlaçam
Palavras que ficam passam
Como a chuva nas vidraças
Vem ao baile oh tens de vir
e perder-te nos espelhos
há outros muitos mais velhos
que ainda sabem sorrir
Vem ao baile da loucura
Vem desfazer-te do corpo
e quando caíres de borco
a tua alma é mais pura
Vem ao baile vem ao baile
pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver o que é bailar


Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca




Em Entradas, Castro Verde há verdadeiras celebrações pagãs: é o Entrudanças!





A Pédexumbo organiza 3 dias com diversas actividades: desde oficinas de tango e construção de máscaras de carnaval a torneios de malha, há para todos os gostos.


Vou-vos confessar que estou empolgada com a oficina de cante alentejano, o passeio de tractor e com as histórias do Ti Manel Russo, claro!
Se gostaram da sugestão de movimento, Rodobalhem um bocado, ficam a par de todas as iniciativas.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

domingo, fevereiro 04, 2007

As máquinas de Munari


It doesn't take much to realise that this is a summer machine. If you behave and don't start kicking me in the shins, i'll explain how it works. Ready?
Go!: the sunflower(1) has a magnifying glass (2) tied on the with a shoelace from a pre-war shoe. The fire from the lens scalds Romilda the frog (3) who jumps immediatly into the aluminium colander (4).
The weight of the frog lowers the colander into the bath (5) wich is almost full of water and mint where Romilda can cool down before returning to her place of work. ( excuse me a moment, the phone is ringing).
Now as we were saying, the colander et cetera et cetera drops into the bath and pulls tha cord (7). The cord, passing around the multicoloured pulley (6) raises the bottom of the bottle of eau de vie (8) and pours the contents into the aquarium (9) wich is the home of an old trout.
The trout gets drunk; a flower (10) hinged to the cage (11) is attached to its tail. The old trout waves the flower about all over the place and the two huge butterflies whose wings are the size of fans, will try in vain to land on the flower, producing the desired currents of air.

Notes:

a) The top hat that serves as a plant pot for the sunflower was given to me by Andrew Mac Brambilla of Como. This dear driend is the inventor of the famous automatic wet towel dispensing machines you will undoubtedly have noticed in the foyers of all leading theatre and cinemas. He has made a lot of money from this invention and now lives in an underwater villa and, the last time i saw him, he told me he had his Great Dane re-covered in eel skin.


b) If the apparatus does not function, wave the handkerchief in a westerly direction several times.



Bruno Munari é um nome frequentemente associado ao design. Conheci-o há uns tempos através de um livro de Literatura para Infância.
As Máquinas de Munari podem ser um estímulo interessante para um atelier de escrita.

Esta edição de 1942 foi reeditada pela Corraini em 2001 e podem encontrá-la numa Fnac.
Boa Leitura!

Sites a visitar sobre o autor:

Bruno Munari

au grande cirque de bruno munari

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Quinta de Contos| 1 de Fevereiro| 22h | Ateneu de Coimbra- Sé Velha


Outra Quinta de Contos!

Prometi à Lena que escrevia qualquer coisa sobre o convidado, mas ela escreveu lindo, bonito mesmo! E então deu-me uma preguiiiçaa...


"Desta vez vamos ter o Lalaxu como convidado. E de certeza que ele nos embalará em crioulo. E de certeza que ele nos transportará para o calor de outros dias e outras sábias culturas. Dia 1 de Fevereiro, às 22h00 no Ateneu de Coimbra, a Camaleão realiza mais uma QUINTA DE CONTOS."


Escreves finuras Leninha! Até já estou com saudades de ouvir a história do rapaz que arranjou uns sapatos para ir dançar...

Da outra vez comeu-se a broa divinal do Zé Craveiro. Agora alguém prepare farnel, faxabore!

Até lá!

-É para agora ou quer que embrulhe?


Sobrevivi à noite eighties onde nostálgicos imitavam robots na pista, aspirantes a músicos acompanhavam solos de órgãos eléctricos com uma guitarra invisível nas mãos; raparigas revivalistas de olheiras fundas disfarçavam-nas nas casas de banho com muito pó e algum blush imbuídas do espírito “sex, drugs and rock and roll”. Sobrevivi até ao “Funky Cold Medina”!
De manhã, procurava conforto e carinho nos pastéis de nata da pastelaria mais próxima e acabei por encontrar uma reflexão sobre o sentido da vida. É verdade!
“É para agora ou quer que embrulhe?” – isto dizia-me o empregado, enquanto eu lhe prestava atenção, demasiada até. Desde os movimentos dos lábios que articulavam o seu bigode farto (um dos melhores espectáculos de marionetas que já vi, diga-se) até à extremidade do seu braço onde a pinça apertava o pastel expectante.
Era o momento de viragem, tinha aprendido muito nessa noite.
Embrulhar para quê? Para mais tarde? A massa folhada já não ia estar estaladiça, o creme não ia estar quente. Não! Só existo agora, quando faço e experimento, não sei o que é o futuro. Embrulhar é adiar o que eu sou, o que posso ser. Claro que não verbalizei este discurso no mínimo estranho para o senhor da pinça. Aceitei-o com dois guardanapinhos que diziam “Bom Apetite” e fui embora.
Aprendi isto, porque conheci alguém muito especial. Subitamente, a meio da noite, quando a música estava mais apoteótica, a transpiração mais agressiva, as pisadelas mais frequentes, enfim, tudo do melhor… o Tempo interrompe o seu fluxo. Tudo pára. Sid Vicious que arrasava com “Anarchy in UK” deslizou suavemente para o piano e começou a tocar a melodia do célebre filme da Disney: “ Someday my prince will come”. As pessoas começaram a dançar valsas por entre borboletas e pássaros tropicais que de repente invadiram a sala. E eis que a spotlight descobre-o (sem ele se aperceber, claro). A minha intuição feminina confirmava as suspeitas que eu vislumbrara no seu olhar ternurento (que ele lançava ao fazer um cigarro… apesar dos seus óculos graduados e do seu cabelo até às sobrancelhas). Mas Vicious cansou-se do piano e da voz de falsete e voltou ao punk, os pássaros e borboletas voltaram ao filme e as pessoas voltaram aos anos 80.
Ouvia-se “ She’s lost control”, e os meus movimentos coreográficos à Ian Curtis não combinavam muito com o quadro de amor romântico novecentista que esboçara há algum tempo atrás. Embriagada pela música e pelos dois finos deixei-me guiar pela onda epiléptica. Quando a música mudou e voltei a abri-los já a voz da Cindy Lauper invadia o espaço, e para minha surpresa não era só a Cindy! O meu princípe da Disney e o seu amigo também. Depois do meu desgosto de desenho animado, confesso que até gostei de o ver saracotear as ancas e agitar os ombros para o namorado. Juntei-me a eles, aos saltinhos e gritinhos, invadida pelas palavras daquela grande líder espiritual:

- OH, GIRLS, JUST WANNA HAVE FU-UN!


Digam Não ao Embrulho!

domingo, janeiro 28, 2007

A sereia das pernas tortas



Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia como era bonita.
Quando era bonita, as pessoas diziam-lhe:
-Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
-Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
-Faz-me ou bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais gostavam dela, tanto quando era bonita como quando era feia, como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço, estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a mastigar.
Logo a seguir passou pelo poço o criado do rei, que pescou o peixe.
Na cozinha do palácio as criadas, a arranjarem o peixe, descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era tão feia que não era feia. Por isso quando os criados foram chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei apaixonou-se pela mulher.
-Será uma sereia?- perguntaram em coro as criadas ao rei.
- Não, não é uma sereia porque tem as duas pernas, muito tortas, uma mais curta que a outra. - respondeu o rei às criadas.
E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à mulher quando as criadas foram embora:
- Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram logo a seguir no tapete de Arraiolos da casa de jantar.
Adília Lopes, In Quem quer casar com a poetisa?

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Xkéban y Utz-colel -Lenda Maia, por Marta Escudero




Marta Escudero é uma contadora mexicana do universo do feminino: de alcova, humilhações, diários, suspiros, trabalho. Conta histórias de "buenas mujeres de moral distraída"- Las Ruleteras. Este era o nome que na Cidade do México se dava aos táxis e que por expansão de significado se começou a dar também às prostitutas, mulheres que são “poco respetuosas con las buenas costumbres y tienen tendencia a un amplio intercambio carnal”.
Las Ruleteras é um espectáculo de contos com reportório de contos muito variado de: Isabel Allende "Hermelinda", Gabriel García Márquez "la increible historia de la cândida Erendira y de su abuela desalmada", Francisco Rojas González "Las Rojas Goméz", ou enraizados na tradição oral mais ancestral como o conto que ouvimos.
A música de Pep Lladó ambienta e enfatiza os momentos da narração.
Espero que gostem!

sábado, janeiro 20, 2007

"Contra as Constipações....


Laranjas e Limões."


Deixem-se de medicamentos e vacinas! Afinal está tudo de cama na mesma. O melhor são os métodos da avozinha. Aqui fica uma receita caseira de um xarope milagroso (este é para a tosse e rouquidão):


Numa tigela (leia-se tuperware, p.f.) põe-se uma boa camada de cebola picada, cobre-se com açúcar amarelo, por cima outra camada de cenoura cortada miudinha e bota-se outra camada de açúcar amarelo. Deixa-se ficar de um dia para o outro para "rever água". Bebe-se uma colher de chá dessa água 3 vezes ao dia. Tem de se ter na lembrança de espremer bem a mistura.



Se forem adeptos da boa-mesa, podem usar a cebola e a cenoura neste Caldo de Rabo de Boi (uma coisinha leve):


Faz-se um refogado com banha de porco e uma cebola cortada às rodelas finas, um dente de alho, dois tomates sem pele nem pevides, três cenouras e um ramo de salsa. Quando a cebola estiver já passada, deita-se o rabo de boi, cortado aos bocados e deixa-se que se apure um pouco. Junta-se água suficiente para a sopa e tempera-se com sal e pimenta. Deixa-se apurar bem o caldo e engrossar em lume lento.


As melhoras!

segunda-feira, janeiro 15, 2007

O que é que conto quando conto?, por ... quem quiser!

Astral Projections, Rob Gonsalves

Deixem aqui o vosso testemunho como contadores, narradores... criadores de outros mundos...sejam eles quais forem.


domingo, janeiro 14, 2007

O que é que conto quando conto?, por Clarissa Pinkola Estés


Há muitos modos de abordar as histórias.

O estudioso profissional do folclore, o analista freudiano, junguiano ou de outra corrente, o etnólogo, o antropólogo, o teólogo, o arquólogo, cada um tem um método diferente, tanto na compilação das histórias como na aplicação a elas atribuída. (...)

Em termos viscerais, porém abordo as histórias como cantadora, contadora de histórias, guardiã das velhas histórias. Venho de uma linhagem de contadoras: mesemondók, velhas húngaras que contam as suas histórias sentadas em cadeiras de madeira com as suas carteiras no colo, as pernas abertas, as saias a tocar o chão... e cuentistas, velhas latinas que ficam paradas de pé, com os seus seios fartos, ancas largas, gritando histórias num estilo ranchera. Os dois clãs contam histórias na voz natural das mulheres que vivenciaram famílias e filhos, pão e ossos. Para elas, uma história é um medicamento que fortifica e recupera o indivíduo e a comunidade.
As modernas contadoras de histórias descendem de uma comunidade imensa e antiquíssima composta de santos, trovadores, bardos, griots, cantadoras, chantres, menestréis, vagabundos, megeras e loucos.

Uma vez sonhei que estava a contar histórias e sentia alguém a dar-me palmadinhas no meu pé para me incentivar. Olhei para baixo e vi que estava em pé nos ombros de uma velha que me segurava pelos tornozelos e sorria para mim. "Não, não" disse-lhe eu". " Suba nos meus ombros, a senhora é velha e eu sou nova." "Nada disso" insistiu ela. "É assim que deve ser".
Percebi que ela também estava em pé nos ombros de uma mulher ainda mais velha do que ela, que estava nos ombros de outra mulher que usava manto, que estava nos ombros de outra criatura, que estava nos ombros... Acreditei no que disse a velha do sonho a respeito de como as coisas devem ser. (...) Se existe uma única fonte das histórias e um espírito das histórias, ela está nessa longa corrente de seres humanos. (...)


Adaptado de

Mulheres que correm com lobos

Clarissa Pinkola Estés

sábado, janeiro 13, 2007

Na Biblioteca de Chaves foi assim:








Adoro contar, contar-te, encantar, encontrar-me.
Histórias com livro, com tapete, cantadas, mas as melhores são as histórias da voz e e do gesto sem mais nada.
Pessoas grandes ou pequenas, o que muda é a altura,porque na hora da história: olhos nos olhos e muita ternura.

...hoje estou muito lamechas, mas vejam as fotos primeiro ;)

domingo, janeiro 07, 2007

La Linea



Este clássico de animação cativou-me pelas suas semelhanças com algumas linguagens performativas.
Uma das linguagens que está sempre presente é a do contador de histórias. A mão que desenha-o contador- mostra a personagem e o espaço, para de seguida desaparecer e deixar a história seguir o seu curso, surgindo pontualmente quando quer comentar, reforçar ou corrigir eheh.

Também o narrador/transmissor de histórias se oculta por trás das suas palavras e imagens.
De qualquer forma, vale uma boa gargalhada.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Workshop TALC


O TALC – Teste de Avaliação da Criança é indicado para crianças dos 2 anos e meio aos 6 anos. Tem como objectivos: identificar crianças que funcionam significativamente abaixo dos seus pares relativamente à linguagem, identificar áreas específicas fortes e fracas e promover evidência do progresso da intervenção.
O TALC avalia as componentes de Compreensão e Expressão da Linguagem nas áreas da: Semântica (vocabulário, relações semânticas e frases absurdas), da Morfossintaxe (frases complexas e constituintes morfossintácticos) e da Pragmática (funções comunicativas). O tempo de aplicação do TALC é de 30 a 45 minutos.

Objectivos

- Identificar e descrever as áreas do desenvolvimento da linguagem aferidas no TALC;

-Descrever a forma de aplicação e cotação;

- A aplicabilidade do teste no diagnóstico\ne na formulação de planos de intervenção.

-Conteúdos Programáticos.

-Desenvolvimento da linguagem: a semântica, a morfossintaxe e a pragmática;

- Descrição das áreas descritas no TALC e os subtestes usados.

-Discussão da escolha dos itens dos subtestes;

Conteúdos Programáticos

Desenvolvimento da linguagem: a semântica, a morfossintaxe e a pragmática;

Descrição das áreas descritas no TALC e os subtestes usados. Discussão da escolha dos itens dos subtestes;

Forma de aplicação e cotação dos subtestes.

Exemplificação com alguns casos práticos;

Uso do TALC em diferentes problemas de linguagem: um meio complementar de diagnóstico;

Uso do TALC no planeamento da intervenção: identificação de áreas fortes e fracas e de objectivos de intervenção.

Destinatários: Possuidores e interessados no TALC

Local: Biblioteca do Hospital CUF Descobertas - Lisboa (Parque das Nações)

Forma de aplicação e cotação dos subtestes. Exemplificação com alguns casos práticos;
Uso do TALC em diferentes problemas de linguagem: um meio complementar de diagnóstico;
Uso do TALC no planeamento da intervenção: identificação de áreas fortes e fracas e de objectivos de intervenção.

Data e Horário: 20 Janeiro 2007 (sábado), das 9.30 às 13 horas

Nº de Vagas - 35 (Admissão por Ordem de Chegada das Fichas de Inscrição)
Formadoras:
Maria Dulce Tavares- Terapeuta da Fala, Mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Educação (Multideficiência), Professora na Escola Superior de Saúde do Alcoitão
Eileen Sua Kay- Terapeuta da Fala, Master in Education, Mestre em Linguística (Psicolinguística), Professora no Instituto Politécnico de Setúbal - Escola Superior de Saúde

Preço de Inscrição :
Até 16/01/2007 - €30
Após 16/01/2007 - €40

terça-feira, janeiro 02, 2007

Quinta de Contos com José Craveiro| 22h| Ateneu de Coimbra



Desejamos um bom 2007 e informamos que as Quintas de Contos continuam.
A Camaleão realiza mais uma sessão de contos no dia 4 de Janeiro, no Ateneu (perto da Sé Velha), às 22h00.
Com o narrador convidado José Craveiro. Homem da terra e da genuína tradição oral. Os seus contos jorram de uma arca feita de tempo perdido. Homem de muitos saberes ... e sabores, ele depois conta-vos.
Apareçam!

Contos e Contadores de histórias na TV



A não perder no dia 5 de Janeiro pelas 22h30, o documentário sobre os contos e contadores de histórias em Portugal, por Helena Gravato.
No canal 2.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Fim do Ano

E no final do ano a bordadeira pousou o seu dedal, a agulha, a cesta das linhas e pensou, olhando a sua obra imperfeita: " Tão belo este esqueleto." E abraçados, saíram a rodopiar pela sala.

LA LOBA
Diz-se que num lugar escondido vive uma velha, velha, velha que todos a conhecem, mas poucos a viram.

Uns dizem que a viram no deserto de Atacama, outros dizem que a viram numa floresta sombria com galhos de lenha de estranhos formatos às costas, outros dizem estava junto ao mar, outros dizem que estava na estrada de El Paso e que os homens solitários lhe davam boleia.
Por isso chamam-lhe muitos nomes: La Huesera, La Trapera ou La Loba.

É uma velha despenteada, de uma magreza feroz, calada. Raramente fala e evita as pessoas, só fala com os animais imitando as suas vozes. Apesar da sua idade, ela é capaz de caminhar durante horas em busca de ossos; é esse o único trabalho de La Loba.
Não julguem que é um trabalho vão! Ela sabe que precisa de apanhar aquilo que se poderia perder no mundo. E assim, vai enchendo a sua caverna de ossos de todos os tipos de criaturas: veado, cascavel, corvo.
Mas dizem que a sua especialidade é apanhar os ossos dos lobos.
Por eles, ela vai durante dias pelas montanhas e desfiladeiros, pelos leitos secos dos rios à procura dos ossos, e quando consegue juntar um esqueleto inteiro; quando o último ossinho está no lugar e a perfeita escultura branca está erguida à sua frente, ela senta-se perto da fogueira a pensar qual a canção que irá entoar.

Assim que se decide, La Loba levanta-se e aproxima-se do esqueleto, ergue os seus braços e começa a cantar.
E os ossos nus e brancos das costelas e das patas do lobo ficam forrados de carne.
E La Loba canta ligeiramente mais alto.
E o todo o corpo do lobo começa a cobrir-se de pêlos.
E La Loba canta mais.
E a criatura inspira a primeira golfada de ar.
E La Loba não pára de cantar, com tanta intensidade que o chão estremece, o lobo abre os olhos, dá um salto e vai a correr pelo desfiladeiro.

Diz-se que num momento desta corrida, não se sabe se pela velocidade, se pelo salpico de água quando atravessou o rio, se pelo bater do raio de Sol ou da Lua no seu pêlo, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre pela floresta.
Por isso, se um dia estiverem perdidos na floresta, no deserto, na estrada ou na vida pode ser que La Loba vos ensine o caminho.

Mito da Mulher Selvagem,
recolhido por Clarissa Pinkola Estés
nas zonas fronteiriças entre E.U.A. e México

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Eu tenho um anjo


Podia ser uma letra de António Variações, mas não é. Podia ser uma aporia destas divindades... também não. É só um testemunho da minha excessiva propriedade terrena.

Recebi este lindo anjo num jantar de Natal, entoava cânticos ao som de harpas divinas parrampampampam (o anjo, não eu, embora vos fosse legítimo esse juízo de valor).
Ó Glória a Deus nas alturas! Ele tinha uma estrela, ele tinha uma vela que iluminava a ascese dos espíritos nesta época de renovação parrampampampam. E naquele limbo de travessas de bacalhau, garrafas e papéis de prendas onde eu via desfilar qualidades e bondade entre os homens de boa-vontade, atraiçoei o meu anjo.
Exibi-o desbragadamente a todas as pessoas, acendi-lhe a vela e tratei-o como se fosse a Estátua da Liberdade, brinquei com ele:
“E agora o Show dos Marretas”… parrampampampam.
Cheguei finalmente a casa, exausta de tanto contacto humano; ia ficar a sós com o meu anjo, uff! Abro a porta do carro para tirar pasta, sacos, tralhas e … parrampampampam, o meu anjo atira-se fulminante e depressivamente do estofo do carro para o asfalto duro, sujo e frio. Desconhecia que os anjos podiam ter tendências suicidas. Será que todos os suicidas são anjos que não suportaram a humanidade?
Apanhei-o com cuidado, recolhi a asa esfacelada, a sua mão amputada e subi as escadas pesarosamente:
“Onde estão os anjos da guarda dos anjos?”
Eu continuo a ter orgulho no meu anjo. É um anjo maneta e aseta, mas tem muita paciência…

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Carta Desesperada ao Pai Natal


Querido Pai Natal,

(sou bastante conservadora e não vou mudar a forma de tratamento só porque estou à beira de um ataque de nervos, não concordam?
Não é por estar a flipar com o Natal e os ensaios dos teatros para o Natal, e as sessões de contos de Natal em catadupa, que me vou pôr a espumar para cima do monitor e escrever "yo broda, tás aqui dentro, topas?! Fazes aí um favorzinho?". Na! Sou uma pessoa bastante controlada e estável.)


Preciso muito de alguns presentes para já, antes da noite de 24 de Dezembro, por favor!
Eu sei que já estavas contente comigo, já não me vias nisto há muito tempo… não sei o que aconteceu… as companhias, talvez...
Só alguns, vá lá… é pouquinho… depois nunca mais peço nada, nunca mais quero esta vida, juro! Vou largar isto de vez!
Epá… eu ficava mesmo bem (pelo menos por hoje) -e juro por tudo- que nunca mais me afundava neste vício, se me orientasses aí umas cenas… tipo:

- Férias de Natal; apesar de adorar estar com os miúdos já estou cansada de lhes dizer: “ Não, os Reis Magos não comiam pouco. Vou contar o que quer dizer "Mago" e porque é que lhes chamaram assim…”

- Reconhecimento da identidade cultural. Se alguns professores, compreendessem que a ética, os valores, a humanidade não se ensina nos livros, não se aprende em histórias vazias de sentido. Aprende-se com outros afectos, e outras histórias passadas com paixão. Para isso, nada melhor do que o nosso património literário oral.

P.S.- Se não trouxeres neste Natal, vou-te esperando, esperando, esperando… prometo que me porto bem.

domingo, dezembro 10, 2006

Porque hoje é Domingo.

Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar...
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»...
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.

Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando porque seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!

Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina...

Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
— Porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!
Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.

Partindo deste principio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.

E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!

Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casas de penhores...
Penso isto, e vou a grandes passadas...
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia.
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz...
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
-ao sol como num ritual consagrado a um deus! —
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendida...

Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras;
venha a ânsia do peito para os braços!

E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura...
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.

A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez que chovia até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos...
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bem feito
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés...
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos.
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
— Rapaz, traz-me um café...

O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
— Olha, quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol...
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
— .... no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caia um fio para a água...
... um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou...

O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
como se fosse uma festa?...
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.

Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!

Mariazinha Santos,
que vá para o cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou...
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes...
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó...
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!

Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!

Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!


Domingo, Manuel da Fonseca

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Contos... de Natal, está visto!

Nesta altura do ano tudo orbita em torno da celebração do aniversário do homem mais conhecido do mundo.
E vice-versa se considerarmos a crença na criação deste pelo Mesmo antes do Seu nascimento... hummm, complicado.
Bom, eu como boa católica já embarquei no espírito eufórico (e por vezes consumista) da quadra: já comprei os gorros psicadélicos: de Natal, para enterrar na cabeça dos familiares na noite de consoada, seleccionei as músicas: de Natal, e claro não podiam faltar os contos: de Natal.

Quem quiser espreitar umas sessões de Contos:

Dia 22 de Dezembro- Biblioteca Municipal de Ansião (a 30 Km de Coimbra, sentido Conímbriga IC3/sentido Tomar IC8)

Hora- 21h30m

Público- Misto ( Adultos e Crianças)

Bilheteira- Entrada Livre


Dia 23 de Dezembro- Livraria Salta- Folhinhas ( Rua António Patrício, Porto)

Hora- Maratona de Contos! É o dia todo com contadores de histórias e músicos!

Público- Infanto-juvenil... e adultos se não incomodarem muito :)

Bilheteira- Entrada Livre

domingo, dezembro 03, 2006

É fresca ou natural?- Parte I

Nestes últimos tempos, os meus dias têm tido pontos áureos intrigantes. Talvez por ter voltado à terra natal e ter encontrado aquilo a que chamam "rotina".
Um desses pontos é quando saio da escola, com os tímpanos a latejar ameaçadoramente, e me sento no café do costume, a enfrentar os berros do empregado atirados para trás do balcão: "Sai uma tosta-mista!"; "Olha o galão quentinho!".
Se não fosse o facto de ter estado com 20 crianças com falta de ritalina (ou de um padre) iria dizer que os pregões dão uma cor medieval ao estabelecimento com problemas de identidade geracional.
É um café cómico, lembro-me de em miúda ir lá e já aí tinha aquelas cadeiras em pele com encostos triangulares. Uma parede ainda tem a alcatifa "chique" desses maravilhosos anos 80 (e penso que as prateleiras com as garrafas de vinho do Porto e os chocolates também, a avaliar pelas caixas amareladas pelo sol). As casas de banho são a prova de que o Srº Carlos compactua em investigações com a N.A.S.A. ou entidades semelhantes. Autênticas cápsulas onde o Homem de 2006 é transportado para a década de 50, há quem diga que já sentiu fragrâncias de outros tempos...
E não é que gosto de lá ir? Começo sempre por beber uma Vidago, tenho esperança que o gás me faça arrotar as decepções do dia. Mas outro dia, o empregado novo armou-me uma cilada:
- Boa Tarde! Então o que vai ser?
- Uma Vidago, por favor. - disse eu a puxar de um cadernito e uma caneta, onde costumo escrever notas importantíssimas como esta que vocês estão a ler. E nesse momento, ele lança-me a pergunta que me revoltou, que me inspirou. Uma pergunta que me fez ponderar se realmente quereria aquela Vidago matreira ou prefereria conviver insuflada com as contrariedades do dia sem as arrotar.
A pergunta que esse agitador de mentes me fez foi:
- É fresca ou natural?
Compreendem agora os leitores o meu sentimento dúbio. Vacilei entre o espanto e a simulação, entre o deslumbramento e o cansaço, entre a indignação e a bazófia, entre o responder e o ficar calada. Respondi:
-Fresca.
Tal como optei por responder, optei por ficar espantada, deslumbrada e ainda indignada com aquela pergunta.
" É fresca ou natural?" Que raiva tinha eu daquele empregado de mesa! Para além de despejar cinzeiros, tirar finos e servir lanches com toda a paciência do mundo, ele ainda se revelava um óptimo Darwin, fantástico Poirot e um Freud razoável.
"Não sou fresca, sabe, mas nisso do Homem-Natural também não acredito."
E enquanto ia engendrando esta e outras respostas, bebia a água, comia o folhado, e os habitantes daquele planeta esquisito iam entrando e saindo. Como se não tivesse acontecido nada. Naquele café meio-clandestino, disfarçado de coisa velha e sem valor onde eu descobri de onde era não-natural.

domingo, novembro 26, 2006

e se...



O espectáculo " e se ..." (clown) de Pedro Correia será apresentado no Subscuta 2006 - Ciclos de Som e Observação.


A vida é um circo. Um palhaço que nasce para um novo mundo. A liberdade de conquistar. A simplicidade de existir. Estes são os fios condutores para o espectáculo "e se...".
A vida de um palhaço que nasce, depois de preso num espaço embrionário, para uma descoberta de um mundo misterioso e diferente, onde se pretende equilibrar marca a abertura da peça. O final esse depende do desenvolvimento resultante com a interacção com a assistência, convidada a participar activamente.
O espectáculo aborda diferentes linguagens: o movimento, o teatro, a música e as técnicas circenses.

CIDADE: Barcelos

LOCAL: Auditório da Biblioteca Municipal

DATA: 2006.12.22 (sexta feira)

HORA: 22Horas

BILHETEIRA: entrada livre.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Ateneu de Coimbra em Festa!!!




O Ateneu faz 66 anos e comemora o seu aniversário! Não esqueçam:

1-

Noite Etno-Urbana 24 Nov Ateneu de Coimbra 22h
Dois concertos excepcionais: A recriação de melodias antigas pelos Chuchurumel e a promissora sonoridade dos Quarto Minguante.

2-

Quinta de Contos 30 Nov Ateneu - Coimbra 22h
Mais uma noite de magia pelo poder das palavras.

3-

Noite Folk 1 Dez Ateneu - Coimbra 22h
Continua o aniversário do Ateneu. Desta vez os convidados musicais são os Rebimbo'malho, Banda Futrica e Diabo a Sete. Aceitam-se apostas se o chão do Ateneu resiste!

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Tradballs tour 7,8,9,10 Dez Leiria, Figueira da Foz, Coimbra, Aveiro 22h
Um fim de semana diabólico! Música dos fol&ar para que a melodia se entranhe. Dança por cada um e por todos os que se queiram misturar. Convidamos os músicos, arranjamos as chaves dos locais, agora só faltam dançar, dançar, dançar até ao entorse.Os detalhes vão surgindo.


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Agradecer ao André, esse grande Rodobalho, pela informação cedida :D

domingo, novembro 19, 2006

Mundogominola: entre a tinta e o papel

"Todos nós, os que contamos histórias, somos espiões, mirones. A vida é demasiado breve e não se pode viver o número suficiente de experiências: por isso é necessário roubá-las."

Estranha forma de vida, Enrique Villa-Matas


Entrem neste mundo feérico, só por um bocadinho. Vamos espiar as personagens de contos à socapa, e regozijarmo-nos com os desenhos que Cláudia, uma ilustradora de Madrid, nos convida a ver através da sua janela.






[...]Sin Embargo, en el frasco no ponía "veneno"; así que Alicia se atrevió a probarlo y, como tenía un sabor muy rico (de hecho sabía a una mezcla de tarta de cerezas, natillas, piña, pavo asado, caramelo y crujientes tostadas de pan con mantequilla) se lo bebió de un trago. [...]

Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll




El viejo literato dijo a la muchacha que en el momento de morir él quería tener un último recuerdo de lujuria.

Ojos de aguja, Adolfo Bioy Casares



- Yo puedo ver en la oscuridad - se jactaba cierta vez Nasrudín en la casa de té.
- Si es así, ¿ por qué algunas noches lo hemos visto llevando una lámpara por las calles?
- Es sólo para que los otros no tropiecen conmigo.

Conto da tradição oral sufi

Salió por la puerta y de mi vida, llevándose con ella mi amor y su larga cabellera negra.

Guillermo Cabrera Infante




Al poco se presentó ante ellos un flautista taciturno, alto y desgarbado, a quien nadie había visto antes, y les dijo: "Esta noche no quedará ni un sólo ratón en Hamelín".
Dicho esto, comenzó a pasear por las calles y, mientras paseaba, tocaba con su flauta una maravillosa melodía que encantaba a los ratones, quienes saliendo de sus escondrijos seguían embelesados los pasos del flautista que tocaba incansable su flauta.

Recolha dos Irmãos Grimm







A L.K. después de aquello, le era difícil respirar. Le producía un extremo dolor soportar la existencia propia y la de los demás. Una terrible incógnita, el porqué de todo.
Así que sin tener la menor idea de qué hacer con su vida, cogió el primer tren para Dublín, buscó trabajo, conoció a una mujer, se casó y tuvo hijos.

Nota: todo lo demás, incluido ese dato, puede ser aleatorio, es decir, que bien puede el personaje coger un tren para Oslo, Londres, Barcelona, o no cogerlo. Y también puede no casarse. Es decir, todo es accidental y fortuito, menos el dolor y la angustia, que han de ser fijos.

Julia Otxoa









Escena en el infierno. Sacher-Masoch se acerca al marqués de Sade y, masoquísticamente, le ruega:-¡Pégame, pégame! ¡Pégame fuerte, que me gusta!
El marqués de Sade levanta el puño, va a pegarle, pero se contiene a tiempo y, con la boca y la mirada crueles, sadísticamente le dice:
-No.

Enrique Anderson Imbert
"Y fueron felices... y comieron perdices."

quarta-feira, novembro 15, 2006

Cuidado! Eles andam aí!




Atenção!
A Polícia de Segurança Pública alerta que os Contabandistas estão em cada esquina, à procura de ... um bom ouvinte de histórias.
Proteja-se e à sua família (se achar mesmo aconselhável).

segunda-feira, novembro 13, 2006

Livraria Infantil Salta-Folhinhas no Porto






Em Novembro aproveite bem a chuva e o frio... aqui fica uma sugestão:
No Porto, há a Livraria Salta Folhinhas especializada em Literatura Infanto-juvenil.

Para mais informações ou visitas:
Rua de António Patrício
4150, 098 Porto
telefone: 22 609 2214
mail: info@saltafolhinhas.pt

domingo, novembro 12, 2006

Quinta de Contos| 30 de Novembro| Ateneu de Coimbra| 22h


No dia 30 de Novembro vamos ter uma grande noite no Ateneu, com as Quintas de Contos da Camaleão.
No dia 1 de Dezembro teremos outra grande noite, com outra Sessão de Contos. Uma parceria com a Livraria Navio de Espelhos e o Teatro Aveirense proporcionar-nos-á no edifício do Teatro Aveirense e dentro da Programação do Festival Sons em Trânsito em Aveiro, este agradável momento.
É que Paula Carballeira traz no seu dizer ritmos e sons diferentes de terras além fronteiras e no coração a mesma paixão pelas histórias. E essa é a linguagem que importa.
Há fronteiras no coração? Então não faltem!

"Un sete de setembro chorei por primeira vez. Estaba nacendo.
Ata os 17 anos vivín en Maniños, no Concello de Fene, descubrindo e explorando unha certa inclinación a fabular outros mundos, preferentemente na literatura e no teatro.
Despois marchei a Santiago de Compostela, onde eu tiña pouco que chorar porque o ceo botaba bágoas a máis non poder. Alí seguín escribindo e disfrazándome en peles de personaxes que me ofrecían outras vidas, outras palabras. Ata hoxe. Pertenzo á compañía de teatro Berrobambán, vou contando contos polo mundo, e nunca mellor dito, pois grazas á antiga arte de contar historias teño participado en festivais de narración oral nacionais e internacionais, e levo publicado uns cantos libros.
Tendo en conta que xa plantei algunha que outra árbore, fáltame ter un fillo. Mentres, seguirei viaxando."

Paula Carballeira

Contamos com o Mundo!

segunda-feira, novembro 06, 2006

No dia de S. Martinho: lume, castanhas e vinho...

E como o cabrito e as castanhas já estão em Trás-os-Montes, nós levaremos os Contos.
No Sábado, não faltem!